A idolatria e a perda do centro
Poucos pecados recebem nas Escrituras um tratamento tão severo quanto a idolatria. Não porque Deus tema a concorrência de falsos deuses, mas porque a idolatria revela a mais profunda corrupção do coração humano: a incapacidade de permanecer debaixo da absoluta centralidade de Deus.
É significativo que ela raramente apareça como uma rejeição aberta ao Senhor. Na maior parte das vezes, nasce precisamente no ambiente da religião. Surge entre aqueles que continuam falando de Deus, oferecendo culto, realizando sacrifícios e conservando a aparência de pertencer ao Seu povo.
É justamente isso que torna a idolatria tão perigosa. Ela não substitui imediatamente a linguagem da fé; apenas altera, pouco a pouco, o seu centro.
Foi isso que aconteceu aos pés do Sinai.
Israel havia contemplado milagres que nenhuma geração anterior conhecera. O mar havia se aberto diante dos seus olhos. A montanha ardia em fogo. A voz do Senhor fizera estremecer toda a congregação. Nenhum povo possuía tantos testemunhos da presença de Deus quanto aquele.
Entretanto, bastaram alguns dias de espera para que viesse à superfície aquilo que os sinais jamais poderiam transformar: o coração do homem.
Enquanto Moisés permanecia sobre o monte, o povo pediu a Arão:
"Faze-nos deuses que vão adiante de nós." (Êx 32:1)
À primeira vista, pode parecer que Israel estivesse abandonando completamente o Senhor. Mas o texto mostra algo ainda mais grave. O povo não desejava deixar de ser religioso. Continuava querendo um culto, um altar, uma festa e um deus que os conduzisse. O problema não era a ausência de religião, mas a recusa em viver pela fé.
O Deus invisível, que falava quando queria e conduzia segundo Sua própria vontade, já não lhes bastava. Era necessário possuir algo que pudesse ser visto, administrado e mantido ao alcance das mãos.
Então Arão recolheu o ouro do povo e moldou um bezerro.
E diante daquela imagem pronunciou-se uma das afirmações mais trágicas de toda a história bíblica:
"Estes são os teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito." (Êx 32:4)
Nada poderia ser mais ofensivo à glória de Deus. A obra da redenção, realizada exclusivamente pelo Senhor, foi imediatamente atribuída a uma obra produzida pelas mãos dos próprios homens.
A idolatria nasce exatamente nesse ponto. Ela começa quando aquilo que pertence exclusivamente a Deus passa a ser transferido para algo produzido pelo homem.
É por isso que o problema nunca foi apenas uma imagem de ouro.
O bezerro apenas tornou visível uma realidade muito mais profunda: o homem deseja um deus que possa controlar.
O Senhor, porém, nunca permitiu que Sua presença fosse reduzida àquilo que o homem fosse capaz de produzir. Desde o princípio, toda a economia divina caminhava em direção a um único centro escolhido pelo próprio Deus. Mais tarde, esse centro seria Jerusalém; depois, o templo; finalmente, Cristo, em quem toda a plenitude de Deus habita corporalmente.
A questão nunca foi geográfica.
Sempre foi a centralidade estabelecida por Deus.
É exatamente esse princípio que volta a ser atacado nos dias de Jeroboão.
Depois da divisão do reino, o novo rei percebeu que, enquanto Jerusalém permanecesse como lugar determinado pelo Senhor para a adoração, o coração do povo jamais estaria completamente sob seu domínio. O problema, portanto, não era apenas político. Era espiritual.
Por isso Jeroboão não aboliu a religião de Israel. Fez algo muito mais sutil.
Construiu um sistema alternativo.
Ergueu dois bezerros, estabeleceu novos sacerdotes, criou novas festas e apresentou tudo isso como uma forma mais conveniente de servir ao Senhor.
Suas palavras repetem quase literalmente aquelas pronunciadas no deserto:
"Eis aí teus deuses, ó Israel..." (1 Rs 12:28)
A mesma mentira apenas reaparece em outra geração.
A idolatria sempre possui essa característica. Ela preserva muitas das formas exteriores enquanto desloca silenciosamente o centro estabelecido por Deus.
O povo continuava sacrificando.
Continuava celebrando.
Continuava falando do Deus de Israel.
Mas já não subia a Jerusalém.
E perder Jerusalém significava perder o testemunho de que Deus havia escolhido um único lugar para fazer habitar o Seu nome.
Não por acaso, toda a história do reino do Norte passa a ser resumida por uma única expressão repetida incansavelmente pelos escritores sagrados:
"Andou nos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fez Israel pecar."
Um único deslocamento de centro tornou-se o padrão espiritual de gerações inteiras.
Esse é sempre o caminho da idolatria. Ela nunca permanece pequena. O que começa como adaptação termina tornando-se tradição. O que nasce como conveniência acaba sendo recebido como verdade. Com o passar do tempo, as novas gerações já não conseguem sequer perceber que o centro foi abandonado.
É precisamente por isso que o Novo Testamento continua tratando a idolatria como um perigo permanente para a Igreja.
Quando Cristo fala às igrejas da Ásia, não encontra comunidades entregues ao paganismo declarado, mas igrejas que haviam começado a admitir elementos estranhos ao Seu governo. Em Pérgamo havia a doutrina de Balaão; em Tiatira, Jezabel. Em ambas aparece uma palavra profundamente solene:
"Tu toleras."
A decadência espiritual dificilmente começa com a negação aberta da verdade. Ela começa quando aquilo que deveria ser julgado passa apenas a ser tolerado. O coração acostuma-se à mistura, perde o discernimento e, pouco a pouco, deixa de perceber a diferença entre aquilo que procede de Deus e aquilo que foi introduzido pelo homem.
Por isso os apóstolos ampliam ainda mais o significado da idolatria.
Paulo chama a avareza de idolatria.
Afirma que há homens cujo deus é o ventre.
O ídolo já não precisa ser uma escultura.
Pode ser qualquer realidade que ocupe o lugar reservado exclusivamente ao Senhor.
Dinheiro.
Segurança.
Influência.
Projetos.
Ministérios.
Instituições.
Até mesmo a própria obra de Deus pode tornar-se um ídolo quando deixa de apontar para Cristo e passa a ocupar o lugar que pertence somente a Ele.
A história das Escrituras revela, do princípio ao fim, que Deus nunca esteve simplesmente combatendo imagens. O Seu propósito sempre foi preservar a centralidade do Seu Filho.
Tudo convergia para Cristo.
Jerusalém apontava para Cristo.
O templo apontava para Cristo.
O sacerdócio apontava para Cristo.
Os sacrifícios apontavam para Cristo.
Sempre que o homem estabelece outro centro, ainda que conserve toda a linguagem religiosa, já iniciou o caminho da apostasia.
Por isso a advertência final de João permanece tão atual:
"Filhinhos, guardai-vos dos ídolos."
Não como uma recomendação dirigida apenas aos pagãos, mas à própria Igreja.
Porque, depois de toda doutrina aprendida, depois de toda experiência acumulada e depois de muitos anos de caminhada, continua existindo um único perigo capaz de corromper completamente o testemunho de Deus: permitir que qualquer coisa ocupe o lugar que pertence exclusivamente ao Seu Filho.
Toda idolatria é, no fundo, uma disputa pelo centro.
E toda a história da redenção é a história de Deus restaurando esse centro em Cristo, "para que em todas as coisas tenha Ele a primazia" (Cl 1:18).