A Autoridade Decrescente de Cristo nas Igrejas
O discurso de despedida de Tozer — publicado dois dias após sua morte em 1963
Este é o fardo em meu coração e, embora não reivindique para mim mesmo qualquer inspiração especial, sinto porém que este é também o fardo do Espírito.
Se conheço meu próprio coração, é apenas o amor que me leva a escrever isto. O que deixo aqui por escrito não é o fermento ácido de alguém agitado por contendas com companheiros cristãos. Não houve conflitos. Não fui abusado, maltratado ou atacado por ninguém. Essas observações também não são fruto de experiências desagradáveis que tenha lido em minha associação com outros. Minha convivência com a igreja que frequento, assim como cristãos de outras denominações, sempre foram amigáveis, corteses e satisfatórias. Minha tristeza resulta simplesmente de uma condição que acredito achar-se quase universalmente presente nas igrejas.
Penso que devo também reconhecer que eu também me encontro bastante envolvido na situação que deploro aqui. Como Esdras em sua poderosa oração intercessória incluiu-se entre os malfeitores, faço o mesmo: "Meu Deus! Estou confuso e envergonhado, para levantar a ti a minha face, meu Deus: porque as nossas iniquidades se multiplicaram sobre a nossa cabeça, e a nossa culpa cresceu até os céus" (Ed 9:13).
Qualquer crítica feita aqui a outros deve voltar-se contra mim. Eu também sou culpado. Isto está sendo escrito na esperança de que possamos todos voltar-nos para o Senhor nosso Deus e não pecar mais contra Ele.
Jesus Cristo não tem hoje quase nenhuma autoridade entre os grupos que se chamam pelo seu nome.
Não estou me referindo aqui aos católico-romanos, nem aos liberais, nem sequer aos cultos quase-cristãos. Refiro-me às igrejas protestantes em geral e incluo aquelas que protestam mais alto que não se acham num declive espiritual — os "evangelicais".
Trata-se de uma doutrina básica do Novo Testamento que, após a sua ressurreição, o Homem Jesus foi declarado por Deus como sendo Senhor e Cristo, e que Ele foi investido pelo Pai com absoluta soberania sobre a igreja que é o seu Corpo. Ele possui toda a autoridade no céu e na terra. Na hora oportuna Ele irá exercê-la plenamente, mas durante este período na história Ele permite que esta autoridade seja desafiada ou ignorada. E justamente agora ela está sendo desafiada pelo mundo e ignorada pela igreja.
O rei sem autoridade
A posição atual de Cristo nas igrejas evangélicas pode ser comparada à de um rei numa monarquia limitada, constitucional. O rei não passa em tal país de um símbolo agradável de unidade e lealdade, tal como uma bandeira ou hino nacional. Ele é louvado, festejado e sustentado, mas sua autoridade como rei é insignificante. De maneira nominal lidera a todos, mas nas horas de crise alguém mais toma as decisões. Nas ocasiões solenes aparece em suas roupagens reais a fim de pronunciar o discurso insípido, incolor, colocado em seus lábios pelos verdadeiros senhores do país.
Entre as igrejas evangélicas, Cristo não passa hoje de um simples símbolo, muito amado. "Todos Louvem o Poder do Nome de Jesus" é o hino nacional da igreja e a cruz sua bandeira oficial. Mas nos serviços semanais da igreja e na conduta diária de seus membros, alguém mais — e não Cristo — toma as decisões. Devido a uma organização longa e meticulosa, o jovem pastor recém-saído do seminário exerce hoje muitas vezes mais autoridade sobre a igreja do que Jesus Cristo.
Cristo não só tem agora menos ou nenhuma autoridade — Ele também está perdendo cada vez mais a sua influência. Não diria que ela é inexistente, mas sim que é pequena e está diminuindo. Uma comparação justa seria com a influência de Abraão Lincoln sobre o povo norte-americano. O honesto Abe continua sendo o ídolo do país. Seu rosto bondoso, austero, tão comum que chega a ser belo, aparece em toda parte. Mas depois de termos controlado nossas emoções, o que nos resta? Nada mais que um bom exemplo, o qual, à medida que retrocede no passado, se torna cada vez mais irreal e exerce uma influência cada vez menor. A luz fria dos fatos nos mostra que o apelo constante a um nome não passa de uma piada cínica quando não há obediência real.
A soberania de Jesus não está de todo esquecida entre os cristãos, mas foi relegada ao hinário, onde toda responsabilidade em relação a ela pode ser confortavelmente descarregada num brilho de agradável emoção religiosa. A ideia de que o Homem Cristo Jesus possui autoridade final e absoluta sobre toda a igreja e todos os seus membros em cada detalhe de suas vidas é simplesmente posta de lado como não sendo verdadeira pelos cristãos evangélicos de modo geral.
O que fazemos na prática
O que fazemos é o seguinte: aceitamos o cristianismo de nosso grupo como sendo idêntico ao de Cristo e seus apóstolos. As crenças, práticas, ética e atividades de nosso grupo são equacionadas com o cristianismo do Novo Testamento. O que quer que o grupo pense, diga ou faça é bíblico, sem que façam perguntas.
No sentido de evitar a dura necessidade de obedecer ou rejeitar as claras instruções do Senhor no Novo Testamento, nos refugiamos na interpretação liberal das mesmas. Os evangélicos também sabem perfeitamente fugir das arestas aguçadas da obediência por meio de explicações sutis e complexas. A essência de tudo é simplesmente que Cristo não poderia ter pretendido dizer o que disse. Seus ensinamentos, mesmo em teoria, são aceitos apenas depois de terem sido diluídos pela interpretação.
Cristo é porém consultado por um número cada vez maior de pessoas com "problemas" e buscado pelos que desejam paz de mente. Ele é largamente recomendado como uma espécie de psiquiatra espiritual com poderes notáveis para esclarecer os que estão confusos. Este Cristo estranho não tem naturalmente qualquer ligação com o Cristo do Novo Testamento. O verdadeiro Cristo é também Senhor, mas este Cristo tolerante não passa de um servo do povo, um pouco mais graduado.
As perguntas que revelam
Suponho que devo oferecer alguma prova concreta para apoiar minha acusação de que Cristo tem pouca ou nenhuma autoridade hoje entre as igrejas. Farei então algumas perguntas e a resposta às mesmas será a evidência.
Qual a diretoria da igreja que consulta as palavras do Senhor para decidir os assuntos em discussão? As reuniões administrativas são geralmente iniciadas com uma oração formal; depois disso o Cabeça da Igreja fica respeitosamente em silêncio enquanto os verdadeiros governantes passam a agir.
Que comitê da Escola Dominical pesquisa a Escritura pedindo orientação? Não é verdade que os membros invariavelmente julgam que sabem tudo o que precisam fazer e que o único problema é descobrir meios eficazes para pôr seu plano em prática? Planos, regras e novas técnicas metodológicas absorvem todo o seu tempo e atenção. A ideia de que o Senhor possa ter algumas instruções para dar-lhes nem sequer lhes cruza a mente.
Qual a entidade missionária no estrangeiro que realmente busca seguir a orientação do Senhor como provida pela sua Palavra e seu Espírito? Todas pensam que fazem isso, mas na verdade apenas presumem que seus objetivos são bíblicos e pedem em seguida auxílio para alcançá-los. Cristo é desejado como ajudante e não como Senhor.
Qual o cristão que vai diretamente ao Sermão do Monte ou outra passagem do Novo Testamento para obter uma resposta com autoridade ao enfrentar um problema moral? Quem aceita as palavras de Cristo como finais com relação à coleta, controle da natalidade, criação dos filhos, hábitos pessoais, dízimo, diversões e outros assuntos importantes?
Vemo-nos diante de uma estranha anomalia: a autoridade de Cristo é ignorada a fim de manter uma entidade que ensina, entre outras coisas, a autoridade de Cristo.
As causas do declínio
As causas que produziram o declínio da autoridade do Senhor são várias. Citarei apenas duas.
Uma delas é o poder do costume, precedente e tradição nos grupos religiosos mais antigos. Como a lei da gravitação, essas coisas afetam cada elemento da prática religiosa dentro do grupo, exercendo uma pressão firme e constante em direção à conformidade com o estado de coisas. O costume e não Cristo é senhor nesta situação.
A segunda causa é o reavivamento do intelectualismo entre os "evangelicais". Se posso julgar corretamente a situação, não se trata tanto de sede de aprender como do desejo de adquirir uma reputação de intelectual. Nossa fé evangélica está sendo hoje atacada de muitas direções diferentes. No mundo ocidental o inimigo vem agora sorrindo, trazendo presentes. Eleva os olhos para o céu e jura que crê também na fé possuída por nossos pais, mas seu verdadeiro propósito é destruir essa fé, ou pelo menos modificá-la até o ponto de não mais conter o elemento sobrenatural que antes continha.
Ele fala no jargão sagrado das escolas e muitos de nossos evangélicos semi-educados correm para render-lhe culto. Os "evangelicais" que foram acusados de não possuírem uma escolaridade de nível superior agora procuram agarrar esses símbolos de posição com os olhos brilhando.
O teste supremo
Para o verdadeiro cristão, o teste supremo de tudo quanto se refere à religião é o lugar que o Senhor ocupa. Ele é Senhor ou símbolo? Acha-se no controle do projeto ou não passa de um simples ajudante? Decide as coisas ou apenas colabora na execução dos planos de outros? Todas as atividades religiosas podem ser testadas de acordo com a resposta dada à pergunta: Jesus Cristo é Senhor neste ato?
Que fazer então? Cada um de nós deve decidir, e existem três escolhas possíveis. Uma delas é indignar-se e acusar-me de uma atitude irresponsável. Outra é concordar de maneira geral com o que escrevi, mas consolar-se com a ideia de que existem exceções e estamos entre estas. A terceira é prostrar-se humildemente e confessar que entristecemos o Espírito e desonramos o Senhor, deixando de dar-lhe a posição que o Pai lhe conferiu como Cabeça e Senhor da Igreja.
A primeira e a segunda não farão senão confirmar o erro. Mas a terceira, se levada até a sua execução final, poderá remover a maldição. A decisão é nossa.
A.W. Tozer · The Alliance Witness, 15 de maio de 1963