Artigo Restauração

Acerca de Jerusalém

O altar, a casa e o muro — a plenitude de Cristo em Esdras e Neemias

T. Austin-Sparks
T. Austin-Sparks Leitura: Neemias 1:1–11
Leitura: 20 min

Em Esdras e Neemias — que são realmente duas metades de um todo e formam uma única narrativa — há um sentido no qual o todo pode ser reunido em três coisas representativas e simbólicas achadas em Jerusalém: o Altar, a Casa e o Muro. Estas três coisas representam Jerusalém, pois quando você analisa o desempenho do coração em Esdras e Neemias, tem a sua operação e expressão quase inteiramente em conexão com elas. E quando você pergunta pelo significado espiritual de Jerusalém no Novo Testamento, a resposta é que Jerusalém representa a inclusividade e plenitude de Cristo.

Se você quiser acelerar o seu estudo para uma rápida conclusão, comece em Apocalipse, pois lá a Nova Jerusalém, a Jerusalém celestial, é sem dúvida a plenitude de Cristo.

O estado de ruína

Quando Neemias fez a sua indagação, ele descobriu o estado de ruína em que Jerusalém estava. O altar desapareceu, a casa tinha sido destruída, e o muro tinha sido derrubado. O altar desaparecido resultou em derrota espiritual, pois o altar foi colocado no seu lugar porque o povo tinha medo dos povos ao redor — de modo que o altar se tornou o símbolo de proteção, segurança, libertação e vitória. A casa destruída significou a perda da vida espiritual, comunhão e plenitude. O muro derrubado fez desaparecer o testemunho da plenitude de Cristo para o mundo.

O resultado dentre o povo do Senhor é um estado de servidão — sujeição aos poderes do mundo, desonra, vergonha, cisão e discórdia, e pobreza espiritual. São sempre as consequências daquilo que é tipificado desse modo:

O resultado para o povo do Senhor é que eles são levados a um estado de servidão. O cristianismo está em servidão ao mundo. Está quase de joelhos implorando ao mundo para que permita existir. Está fazendo tudo que pode a fim de obter o favor do mundo; está pagando os seus dízimos ao mundo.

E quanto à discórdia e cisão dentre o povo do Senhor, e à pobreza espiritual — que tão poucos têm alguma coisa para dar de abundância e riquezas espirituais para os demais. O oposto da pobreza espiritual é uma assembleia constituída nos princípios do Corpo de Cristo no qual todos têm algo para dar. Quando a grande verdade da Casa de Deus está em operação, todo o povo de Deus é sacerdote, e todos têm algo a dar.

O muro e o testemunho externo

O muro é a expressão circunferencial externa do que está dentro. Dentro do muro está a plenitude de Cristo, e o testemunho de Cristo como a máxima satisfação para o Seu povo é transmitido ao mundo. Este é o testemunho para o mundo de que em Cristo há plena satisfação. Era essa a preocupação de Neemias e de Esdras com Jerusalém.

A preocupação do tempo do fim do Senhor é que Ele colocaria no coração de um instrumento o interesse pela restauração da plenitude de Cristo — o testemunho de Deus em Cristo da Sua inclusividade e plenitude. A plenitude de Cristo é a vitória da Sua morte como representada pelo altar. A morte de Cristo é a nossa vitória:

"...para que pela morte destruísse aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos aqueles que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à escravidão."

Hebreus 2:14–15

Então, o poder da Sua ressurreição como representado pela Casa de Deus, o Corpo de Cristo — porque é o Corpo de Cristo que se torna o repositório da verdade e poder da Sua ressurreição. O Corpo de Cristo vem a existir através da cruz, e Ele entra nesse Corpo no poder da Sua ressurreição: "...veio Jesus e permaneceu no meio" — e isso representa para toda esta dispensação a natureza da igreja.

E logo, o testemunho da Sua suficiência para o Seu povo como representado pelo muro. O Senhor é suficiente para o Seu povo, e era esse o objetivo de Neemias — conduzir o povo para dentro dos muros e lhes dizer que o Senhor era suficiente para eles. Através de todo o conflito, toda a prova e as dificuldades, o ponto contínuo de otimismo e louvor por parte de Neemias era a suficiência do Senhor para a inteira situação. Ele inspirou o povo com isso e assim em seis meses toda a obra foi terminada — e todos os de fora chegaram a reconhecer que esses fracos judeus tinham obtido um recurso de plenitude superior ao dos homens.

As dificuldades da restauração

Sempre a restauração é mais difícil do que a construção original. Quando algo é perdido, sempre resulta mais difícil recuperá-lo do que foi para originalmente estabelecê-lo.

A primeira dificuldade era o entulho. Enquanto Neemias estava dando voltas na sua investigação secreta pela noite, uma frase que é usada sobre a situação é esta: "há muito entulho". Isso é sempre uma característica da restauração. No lugar onde o muro outrora estava — aquele lugar que marcava tão definidamente onde as coisas de Deus terminavam e as coisas do mundo começavam — esse mesmo lugar estava cheio de todo tipo de entulho. A clara definição havia desaparecido.

Paulo era um desses. Ele chegou a um tempo em que disse: "As coisas que para mim eram lucro, essas coisas as tenho como perda por causa de Cristo... e as considero como refugo, para que possa ganhar a Cristo." Saulo de Tarso lançando o seu Judaísmo aos cachorros! Ele o fez quando viu Cristo. Você nunca pode sair do entulho até que você veja Cristo.

A segunda dificuldade era a história passada — que tenderia a ser uma base de grande desânimo, até desespero. "Sim, os bons velhos tempos, nunca voltarão. Qual é a vantagem de tentar restaurar?" Esse é o conselho do desespero. É completamente contrário ao Senhor. Neemias representa o espírito de um mover do tempo do fim, e diz: "Bem, se somente for numa pequena companhia aqui e lá, Deus pode ter aquilo que satisfaz o Seu coração." Um instrumento como Neemias repudia todos os argumentos e conselhos como esses, e diz: "Apesar da coisa ter falhado milhares de vezes, Deus é ainda capaz de fazer aquilo no qual Ele fixou o Seu coração."

A terceira dificuldade — homens na carne estão demasiadamente em possessão. Homens na carne tomaram a posse do território do Senhor e das coisas do Senhor. A dificuldade dos interesses adquiridos de tantas pessoas: os seus ofícios e posições, reputações e nomes. O homem ficou no caminho de Deus e no lugar de Deus, e por isso você se depara com esses interesses pessoais de tantas pessoas na obra do Senhor, que a restauração do pleno testemunho do Senhor Jesus é excessivamente dificultada.

E a quarta coisa era o empobrecimento do povo do Senhor pela dominação do mundo. Estas duas coisas sempre vão juntas. Se o mundo tiver espaço nas nossas vidas, o empobrecimento espiritual será achado lá. Quando o mundo é descartado absolutamente e Cristo é tudo em todos, sempre haverão as riquezas de Cristo.

Quando descemos para o Egito o Senhor nos deixa tomar a responsabilidade para levar as coisas. Quando repudiamos o Egito e colocamos a nossa confiança no Senhor, fazendo dEle o nosso recurso, Ele toma a responsabilidade para avançar.

A nota positiva

Não vamos denunciar isto e aquilo e ter a nota negativa todo o tempo. Devemos ter esse lado positivo das coisas: porque temos o que temos, por mera comparação os demais podem ser compelidos a ver que a posição deles não é a certa — não porque dizemos que é errada, mas porque eles têm que ver, sem nada que pudesse sair de nossos lábios, que nós temos o segredo.

Esse é o caminho da eficácia. Nós temos o segredo, e o segredo é o próprio Senhor. Que o Senhor possa nos conduzir até a Sua plenitude, a plenitude de Cristo — a nossa plena satisfação.

T. Austin-Sparks