Artigo Restauração

O Caminho da Restauração

De Adulão a Hebrom — Davi como tipo da vida espiritual em separação, morte, ressurreição e ascensão com Cristo

T. Austin-Sparks
T. Austin-Sparks A Witness and A Testimony · Mar–Abr 1950, Vol. 28-2
Leitura: 25 min

Primeiramente publicado na revista "A Witness and A Testimony", em Mar-Abr 1950, Vol. 28-2. Origem: "The Way of Recovery".

"Davi retirou-se dali, e se refugiou na caverna de Adulão; quando ouviram isso seus irmãos e toda a casa de seu pai, desceram ali para ter com ele. Ajuntaram-se a ele todos os homens que se achavam em aperto, e todo homem endividado, e todos os amargurados de espírito, e ele se fez chefe deles; e eram com ele uns quatrocentos homens."

1 Samuel 22:1-2

"São estes os que vieram a Davi, a Ziclague, quando fugitivo de Saul, filho de Quis; e eram dos valentes que o ajudavam na guerra."

1 Crônicas 12:1

"Ora, este é o número dos homens armados para a peleja, que vieram a Davi, em Hebrom, para lhe transferirem o reino de Saul, segundo a palavra do Senhor."

1 Crônicas 12:23

Fraqueza Espiritual Deve Ser Revelada

Este foi um período durante o qual Israel era particularmente ameaçado pelos Filisteus. Estes sempre foram a sombra na vida de Israel, e o instrumento através do qual a fraqueza e o desamparo de Israel era exposta e revelada. O Senhor geralmente tem uma coisa em particular pela qual revela um estado ou condição. Não é sempre reconhecível como um estado em si mesmo; tem de haver algo que o exponha. O Senhor fará surgir uma situação, uma experiência, uma dificuldade, um desafio concreto, e depois, a incapacidade para enfrentá-la mostrará que essa coisa particular — que em outras circunstâncias não contaria para nada — tem agora se tornado o meio do Senhor para mostrar quão ruim o estado espiritual está.

Quando Israel ficou em posição e condição correta sob Davi, os Filisteus não contaram para nada, eles perderam toda a importância. Mas aqui eles são muito importantes; eles ocupam uma posição predominante — e isso é unicamente por causa do estado espiritual do povo do Senhor.

Por que foi que Israel era impotente diante dos Filisteus? Quando você busca cuidadosamente a resposta, descobre que era porque lá no fundo existia muita coisa em comum entre Israel e os Filisteus. Os Filisteus são conhecidos para nós por um determinado epíteto — os "incircuncisos Filisteus". Davi usou essa frase a respeito de Golias de Gate (1 Sm 17:36). E quando você olha para Israel, esse era realmente seu estado espiritual. Eles eram incircuncisos no coração. Eles tinham as ordenanças — mesmo a ordenança da circuncisão — mas tudo era externo.

Paulo estabelece essa mesma distinção entre a circuncisão externa — que ele chama de falsa circuncisão — e a circuncisão interna do coração. Ele diz que é a última que nos faz israelitas de verdade (Rm 2:25-29). O fato de eles dizerem "Constitui-nos um rei… como o têm todas as nações" (1 Sm 8:5) mostrava que o espírito do mundo tinha entrado no coração deles.

O Caminho da Força Espiritual

(a) Uma Vida de Fé em Separação Para Deus

Naquele ponto na história de Israel em que as coisas estavam dessa maneira, Davi é introduzido. Em oposição a Saul — tipo do princípio do mundo na Igreja — Davi é trazido à luz. Davi representa separação para Deus e uma vida de fé. Israel tinha dito "Queremos algo visível sobre o qual repousar, algo que possamos ver e ter em conta com os nossos sentidos". O Senhor disse: "Eles Me rejeitaram, para que Eu não reine sobre eles" (1 Sm 8:7). Eles se desviaram de uma vida de fé.

Davi entra como o princípio de Deus da fé, exigindo separação do princípio do mundo, do espírito do mundo, da mentalidade do mundo. E logo ele é colocado, pela soberania de Deus, numa posição que será a situação provadora para o povo de Deus — uma prova suprema para determinar se estas pessoas vão realmente prosseguir com Deus ou prosseguir com Saul; prosseguir com o céu ou com a terra; prosseguir no Espírito ou na carne.

Davi foi colocado fora do sistema mundano que havia capturado o povo do Senhor — no deserto, em rejeição. E a primeira coisa que surgiu para o povo de Deus foi a questão do discernimento: saber onde Deus realmente estava, e onde suas necessidades espirituais mais profundas seriam satisfeitas.

A palavra hebraica "amargurados de espírito" foi infelizmente traduzida por "descontentes". Muita gente tem falado depreciativamente de um lugar como a "caverna de Adulão", implicando que é o lugar de pessoas insatisfeitas que não podem se dar bem com mais ninguém. Mas dar-lhe esse sentido é alterar completamente o significado espiritual disto. Deus tem tido que fazer esse tipo de coisa uma e outra vez — quando a Igreja se afasta de uma posição puramente espiritual, celestial, tem sido sempre uma minoria que esteve pronta; e em seguida as pessoas dizem deles: "Isso é uma caverna de Adulão". Não — eles estavam amargurados de alma, incapazes de satisfazer suas obrigações espirituais, porque a provisão para a competência espiritual tinha sido perdida.

(b) União com Cristo na Morte

Esta posição no deserto, e tudo que envolveu para Davi e para os que foram até ele, representa claramente a união do crente com Cristo na morte. Os demais se gloriavam no portentoso Saul — era algo mundano, de acordo com as nações. Paulo disse: "Longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo" (Gl 6:14).

É essa união com Cristo na morte para o espírito e sistema do mundo inteiro que está representada aqui — como os Filisteus que entravam com seus princípios mundanos, causando problemas e levando o povo do Senhor para um lugar em que Ele não podia continuar com eles. Aqueles que foram até Davi tomaram uma posição fora disso; representam o povo verdadeiramente espiritual que toma seu lugar nesse aspecto da Cruz, que significa morte para toda aquela coisa. A vida de Davi estava sendo procurada, e os que se uniram a ele se tornaram fugitivos com ele, desistiram de suas posições e todas suas esperanças nesse reino — e deram suas vidas.

(c) União com Cristo na Ressurreição

A segunda passagem, em 1 Crônicas 12, nos conduz até Ziclague. Enquanto Davi e seus homens estavam fora, os Amalequitas fizeram uma incursão à cidade, capturaram tudo — esposas, crianças e todas as posses — e depois queimaram a cidade com fogo. Quando Davi e seus homens voltaram, encontraram que tudo tinha desaparecido ou sido destruído. Eles choraram, diz a Escritura, "até que não houve neles mais forças para chorar". Foi verdadeiramente o lado da morte.

Porém, em seguida: "Mas Davi se fortaleceu no Senhor seu Deus". Consultou ao Senhor sobre se deveria perseguir os Amalequitas, e o Senhor disse: "Persegue-os". O Senhor facilitou soberanamente o alcance dos inimigos, de modo que Davi recuperou tudo (1 Sm 30:1-31).

Progresso espiritual significa a apreensão de Cristo ressurreto pela restauração de tudo que tem sido perdido. Não serviria tomarmos a posição da morte com Cristo e deixá-lo lá; devemos progredir para o outro lado. Foi uma restauração muito completa.

(d) União com Cristo nos Celestiais

Passamos para a terceira passagem, na segunda parte de 1 Crônicas 12: "Ora, estes são os números dos chefes armados para a peleja, que vieram a Davi em Hebrom". A terceira etapa — Hebrom. O nome significa Liga ou Comunhão. Diz-se que Hebrom era uma cidade muito antiga, cuja história se perde nas névoas da antiguidade, como se estivesse fora deste mundo.

Para onde chegamos através da morte e ressurreição? Qual é a seguinte posição? Certamente é nos celestiais. A soberania do Senhor Jesus aparece como já entronizado. É aqui que eles fazem Davi rei. Passamos agora de "Romanos" para "Efésios". É "os celestiais em Cristo Jesus". Deus "O ressuscitou dentre os mortos e fazendo-o sentar-se à sua direita nos céus, muito acima de todo principado, e autoridade, e poder, e domínio" (Ef 1:20-21).

É a Igreja nos celestiais que, tipologicamente, vemos aqui — a comunhão que está fora deste mundo, de uma natureza verdadeiramente espiritual; união com Cristo em ascensão nos celestiais, onde Ele é absoluto e inquestionável Senhor. Ele é "para ser Cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas" (Ef 1:22-23). Aqui há algo mais do que uma sociedade terrena ou instituição — é aquilo que é tirado da antiguidade, desde "antes da fundação do mundo" (Ef 1:4).

E achamos que lá em Hebrom, eles tiveram um tempo muito bom. Eles festejaram por sete dias, comeram e beberam, e queriam ficar mais outros sete dias. Com alguém que prova uma real comunhão celestial, não existe a pergunta "A que denominação você pertence?". Eles tinham deixado tudo isso para trás. Eles entraram numa esfera em que Cristo é o único e absoluto Senhor.

Se você prova esse tipo de comunhão você desejará continuar. A seguinte etapa seria Jerusalém. Quando o Senhor obtiver na terra algo semelhante ao que acabamos de falar, você pode esperar a vinda do Senhor brevemente.

T. Austin-Sparks · A Witness and A Testimony, Mar–Abr 1950